De trabalhador a colaborador
De utente a cliente
De pai a significativo
miranda.manel@gmail.com
Era um administrador de um banco que em entrevista na TV várias vezes utilizou a designação de “os meus colaboradores”. Pela insistência, chamou-me a atenção.
Os “colaboradores do banco”, na entrevista do administrador, substituíam “trabalhadores bancários”, designação usada à época.
A palavra “colaborador” em pouco tempo conquistou espaço. Hoje é moda. Já não há trabalhadores, há colaboradores, “colaboradores são os trabalhadores das empresas em linguagem moderna”.
O dicionário da Língua Portuguesa diz que colaborar significa “trabalhar com”, “trabalhar em comum com outrem”, “cooperar”, “participar”, “trabalhar ao lado de”, trabalhar assim num ambiente de confiança, de amizade e de aproximação.
Ao recordar o administrador do banco salta-me o comentário: o administrador ganha muitos milhares por mês e o “colaborador” lá do banco ganha uns mínimos negociados à lupa. O administrador tem prémios de produção de milhões e o “colaborador” lá do banco faz muitas horas extraordinárias por ano e não lhe são pagas. Um obedece e está sempre na iminência de ser despedido e o administrador muda-se com indemnizações e prémios de milhões. São estas as novidades de todos os dias.
Mas é nos bancos que está o dinheiro e também o poder. Dicionários para quê!?...
Mas as tendências modernaças de mudar os nomes às coisas não se ficam por aqui.
Antes havia “utentes”, agora há “clientes”.
Nas instituições de solidariedade social, nos lares de idosos, nos centros para deficientes, os utentes passam, muitos já passaram a “clientes”. Numa linguagem modernaça utilizada sem consultar dicionários, que técnicos, ávidos de modernices, aceitam facilmente.
Por este andar, os alunos das escolas passam a “clientes” da escola. Os “utentes” dos centros de saúde passam a “clientes” dos serviços de saúde. Nos transportes da cidade, os “utentes” passam a “clientes”. Tudo numa linguagem modernaça.
O dicionário diz que “cliente é pessoa que compra algo”, “cliente é a pessoa que adquire produto à venda”, que “paga o que recebe em troca”. Mas as instituições, as escolas, são prestadoras de serviços. O Estado atribui recursos financeiros em função dos serviços prestados. Não há negócio, nada se vende e nada se compra. E os serviços não andam ao sabor da concorrência, não funcionam pelas leis do mercado.
Nesta tendência modernaça de mudar os nomes às coisas resulta que eu era pai há mais de 30 anos. Num instante, deixei de ser pai. Agora, pela nova linguagem, passei a ser um simples “significativo” do meu filho.
Este saneamento de palavras dos dicionários está num “manual de processos-chave - centro de actividades ocupacionais”, disponível no sítio da Segurança Social, na internet.
O “manual” é um livro de 200 páginas. E em 200 páginas, nem uma só vez aparece a palavra “trabalhador”, mas “colaborador” aparece 122 vezes. Nem uma só vez aparece a palavra “utente”, mas “cliente” tem 726 entradas. A palavra “pai” aparece uma única vez como que envergonhada e num contexto pouco significativo, mas “significativo”, como “significativos do cliente – todos os indivíduos que estabelecem relações com o cliente de tipo afectivo, como familiares”, aparece 160 vezes.
Estamos perante tendências modernizadoras, alheias aos dicionários da língua.
E assim temos “colaboradores” que ganham bem, têm poderes para contratar, despedir, avaliar e para submeter e mudar outros “colaboradores”. Há “colaboradores” com grandes poderes sobre outros “colaboradores”, estes precários, dependentes, obedientes, submetidos, silenciosos, medrosos, pagos pelos mínimos, ao sabor dos caprichos de outros “colaboradores”.
A mesma palavra, mas com conteúdos, práticas e estatutos bem distantes.
E pelo andar das tendências modernaças ainda podemos vir a ter “comissões de significativos de clientes de escola” e “comissões de clientes dos centros de saúde”.
E é de ter em conta que este linguajar modernaço está para ter seguidores. Seguidores que não conhecem tradições, nem conhecem os significados das palavras que constam nos dicionários. Seguidores que se acham preparados só porque utilizam palavras modernaças perante pessoas que os ouvem com indiferença, ou desdém.
São modas!
As modas passam depressa e não deixam memória. Enquanto estão, manifestam-se assim!
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sábado, 18 de dezembro de 2010
sábado, 24 de julho de 2010
segunda-feira, 31 de maio de 2010
domingo, 31 de janeiro de 2010
quarta-feira, 20 de janeiro de 2010
Pais-em-Rede
para a deficiência
miranda.manel@gmail.com
A rádio TSF, num programa tendo como assunto a forma como integramos cidadãos com deficiências na nossa sociedade, inseriu uma intervenção que transcrevo: “No sentido de unir as famílias em todo o país que se vêem confrontadas com o problema da deficiência, seja ela ligeira, profunda, mental ou física, está a ser criado um movimento cívico denominado Pais-em-Rede. É um movimento cívico de âmbito nacional que está a dar os primeiros passos”, para debater uma causa comum. A causa é a deficiência.
“Pais-em-Rede” é um movimento cívico, de âmbito nacional, composto por famílias especiais e que pretende constituir-se como parceiro social para unir vozes para comunicar, discutir, organizar e propor soluções, para mudar mentalidades, na mira de uma progressiva qualidade de vida das pessoas com deficiência e das suas famílias.
O movimento não pretende substituir ou sobrepor-se a nenhuma associação. Seu principal objectivo é o de congregar esforços, criar uma rede de cidadãos responsáveis, de pais interventivos.
O movimento pretende trabalhar em rede, estabelecer relações de proximidade com os pais, com as famílias que têm pessoas com deficiência, porque está consciente que um filho deficiente representa um grande abalo para a família.
Lê-se no projecto que um filho com deficiência traz “revolta, medo, culpa, isolamento, insegurança, desorientação”, um filho que pela vida “vai ser sempre centro de apreensões, incertezas, insegurança das famílias”.
Para responder a estas preocupações, o movimento propõe, no seu projecto, dar apoio, informação, fazer aproximação com as famílias, nem que seja só com uma palavra amiga nos momentos de angústia e de incerteza.
No projecto lê-se que “não existem apoios, e os que existem funcionam de modo desagregado”. Uma constatação dolorosa. Os apoios são insuficientes. Muitos dos que existem não respondem às necessidades da população com deficiência. Uns longe do agregado familiar, outros muitas vezes burocratizados por uma visão de deficiência muito longe do que os pais precisam e querem.
Para a deficiência há várias organizações, algumas com nome reconhecido e de âmbito nacional e com história feita. Outras com designação mais localizada. É desejável que os projectos sejam transversais e envolventes, porque a causa é de todos, mas nem sempre isso acontece. O trabalho para a capelinha ou para a sigla atrofia e os que perdem são os deficientes.
O movimento “Pais-em-Rede” pretende chamar os pais para os destinos das organizações, pais mais interventivos e empenhados.
Lê-se no projecto que “os censos de 2001 estão marcados por uma significativa taxa de erro”, o que é verdade, e refere que “as incapacidades intelectuais são as que mais fogem aos números dos censos”, outra verdade.
Temos que reconhecer que os assuntos da deficiência estão a passar por grandes transformações, uma significativa evolução. Uma visão nova está em formação. Os direitos de cidadania estão a ser consciencializados, há mais respeito, mais aceitação. São conquistas para não voltar atrás.
O reconhecimento dos direitos de cidadania leva-nos a um patamar mais elevado, a lutar e a exigir direitos da vida quotidiana, direitos mais palpáveis, como:
- O direito à educação e que escola inclusiva responda com coerência às exigências de uma educação para a vida, ensino adequado à população com deficiência, com projectos educativos individualizados e que a educação não se fique pela idade escolar, mas que tenha continuidade.
- O direito à saúde pede recursos e técnicos para a reabilitação e para a manutenção de competências.
- O direito ao trabalho, massacrado pelas exigências da produtividade, pede trabalho protegido. Nem o Estado cumpre as leis de emprego para deficientes.
- As pensões sociais não podem ser esmola aos desprotegidos.
O movimento “Pais-em-Rede” é um projecto coerente, consistente, traz os pais à linha da frente. É dirigido aos pais.
Talvez demasiado perfeito e ambicioso. Pode ser conhecido no endereço: www.pais-em-rede.com
Conhecedores deste movimento, os pais não podem ficar espectadores.
para a deficiência
miranda.manel@gmail.com
A rádio TSF, num programa tendo como assunto a forma como integramos cidadãos com deficiências na nossa sociedade, inseriu uma intervenção que transcrevo: “No sentido de unir as famílias em todo o país que se vêem confrontadas com o problema da deficiência, seja ela ligeira, profunda, mental ou física, está a ser criado um movimento cívico denominado Pais-em-Rede. É um movimento cívico de âmbito nacional que está a dar os primeiros passos”, para debater uma causa comum. A causa é a deficiência.
“Pais-em-Rede” é um movimento cívico, de âmbito nacional, composto por famílias especiais e que pretende constituir-se como parceiro social para unir vozes para comunicar, discutir, organizar e propor soluções, para mudar mentalidades, na mira de uma progressiva qualidade de vida das pessoas com deficiência e das suas famílias.
O movimento não pretende substituir ou sobrepor-se a nenhuma associação. Seu principal objectivo é o de congregar esforços, criar uma rede de cidadãos responsáveis, de pais interventivos.
O movimento pretende trabalhar em rede, estabelecer relações de proximidade com os pais, com as famílias que têm pessoas com deficiência, porque está consciente que um filho deficiente representa um grande abalo para a família.
Lê-se no projecto que um filho com deficiência traz “revolta, medo, culpa, isolamento, insegurança, desorientação”, um filho que pela vida “vai ser sempre centro de apreensões, incertezas, insegurança das famílias”.
Para responder a estas preocupações, o movimento propõe, no seu projecto, dar apoio, informação, fazer aproximação com as famílias, nem que seja só com uma palavra amiga nos momentos de angústia e de incerteza.
No projecto lê-se que “não existem apoios, e os que existem funcionam de modo desagregado”. Uma constatação dolorosa. Os apoios são insuficientes. Muitos dos que existem não respondem às necessidades da população com deficiência. Uns longe do agregado familiar, outros muitas vezes burocratizados por uma visão de deficiência muito longe do que os pais precisam e querem.
Para a deficiência há várias organizações, algumas com nome reconhecido e de âmbito nacional e com história feita. Outras com designação mais localizada. É desejável que os projectos sejam transversais e envolventes, porque a causa é de todos, mas nem sempre isso acontece. O trabalho para a capelinha ou para a sigla atrofia e os que perdem são os deficientes.
O movimento “Pais-em-Rede” pretende chamar os pais para os destinos das organizações, pais mais interventivos e empenhados.
Lê-se no projecto que “os censos de 2001 estão marcados por uma significativa taxa de erro”, o que é verdade, e refere que “as incapacidades intelectuais são as que mais fogem aos números dos censos”, outra verdade.
Temos que reconhecer que os assuntos da deficiência estão a passar por grandes transformações, uma significativa evolução. Uma visão nova está em formação. Os direitos de cidadania estão a ser consciencializados, há mais respeito, mais aceitação. São conquistas para não voltar atrás.
O reconhecimento dos direitos de cidadania leva-nos a um patamar mais elevado, a lutar e a exigir direitos da vida quotidiana, direitos mais palpáveis, como:
- O direito à educação e que escola inclusiva responda com coerência às exigências de uma educação para a vida, ensino adequado à população com deficiência, com projectos educativos individualizados e que a educação não se fique pela idade escolar, mas que tenha continuidade.
- O direito à saúde pede recursos e técnicos para a reabilitação e para a manutenção de competências.
- O direito ao trabalho, massacrado pelas exigências da produtividade, pede trabalho protegido. Nem o Estado cumpre as leis de emprego para deficientes.
- As pensões sociais não podem ser esmola aos desprotegidos.
O movimento “Pais-em-Rede” é um projecto coerente, consistente, traz os pais à linha da frente. É dirigido aos pais.
Talvez demasiado perfeito e ambicioso. Pode ser conhecido no endereço: www.pais-em-rede.com
Conhecedores deste movimento, os pais não podem ficar espectadores.
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terça-feira, 12 de janeiro de 2010
solidariedade
Uma história com solidariedade
A história que vou contar recebia de um amigo que vive lá longe, no Canadá. O senhor Oliveira mandou-me esta história e eu fiquei sem saber se o meu amigo Oliveira não está dentro desta história.
Correspondo-me com o Oliveira há alguns anos. Nunca nos encontramos. Conhecemo-nos pela internet e a nossa amizade resulta de andarmos num mesmo barco. Andamos no mesmo barco, temos, eu e o amigo Oliveira, filhos com deficiência. Esta história toca-nos e não sei se é um pedaço da vida do Oliveira.
E a história começa assim.
Era um pequeno grupo de amigos que trabalhavam no mesmo sítio. Nesse grupo, o Mauro divertia os colegas com seus ditos e partidas. Todos gostavam dele e puxavam por ele. Não havia dia que o Mauro não pregasse partidas.
O principal alvo das brincadeiras do Mauro era o Hernâni.
O Hernâni falava pouco, mesmo muito pouco. À hora das refeições, o Hernâni afastava-se do grupo. Comia da sua marmita debruçado num silêncio continuado. Comia devagarinho como se estivesse a poupar a comida que trazia, dava a impressão que estava com fastio. Nunca lhe viram na cara ares de saciado. O Hernâni acabava sua refeição compassado pelo comer dos seus colegas. Arrumava a marmita rápido como a querer dizer que não queria dar a conhecer o que comia.
O Mauro estava sempre a pregá-las ao Hernâni. E o Hernâni nunca deu ares de zangado, agastado, aborrecido ou de irritado com partidas do Mauro. Respondia com palavras simpáticas aos atrevimentos do Mauro. Sempre com um sorriso tolerante e amigo e com olhar doce. O comportamento tolerante do Hernâni atiçava mais o Mauro com ditos, partidas e brincadeiras que mais podiam agastar a paciência do Hernâni.
Os companheiros do grupo riam, achavam piada, acrescentavam alguma pimenta às palavras do Mauro. Mas o Hernâni a todos envolvia com um sorriso amigo e tolerante.
Ora um dia o Mauro programou uma partida com antecedência de dias.
A semana trazia um feriado e seguia-se uma ponte.
O Mauro publicitou no grupo que ia aproveitar aqueles dias para umas pequenas férias e que ia fazer pesca e caça, diversões preferidas. E se a pescaria fosse abundante, prometeu que trazia para os colegas uns quilos de pescado. A notícia ficou. Todos desejaram boa pescaria ao Mauro.
De regresso ao trabalho, Mauro apresentou-se carregado. Trazia sacos e arcas com peixe.
Com atitude cerimoniosa, começa a distribuição pelos colegas. Todos agradeciam e admiravam a abundância e a qualidade do pescado.
O saco mais volumoso e pesado ficou para o fim. Foi entregue ao Hernâni.
O Hernâni recebeu, agradeceu e começou a falar num tom de voz desconhecido.
E disse que ia levar tudo para casa, que em sua casa há muitos dias, há meses, há anos não entrava nada assim. E continuou em tom baixo e concentrado a relatar as dificuldades que iam lá por casa. Um filho com deficiência em idade adulta que dava muito trabalho pela incapacidade que tinha. Outros filhos crianças. A mulher doente, desgastada pelo trabalho de arrastar aquela vida de dedicação. Doente por muitas noites acordada para acudir ao filho deficiente. E disse que comia afastado do grupo e muito devagarinho para que os colegas não sentissem a fome que trazia naquela marmita vazia.
Os colegas ouviam em silêncio e sem aqueles risos que acompanhavam as partidas do Mauro.
E é naquele instante que o Mauro salta lá de trás, empurra os colegas para arrancar das mãos do Hernâni o saco, a prenda que lhe tinha distribuído.
No saco do Hernâni, aquele volume e peso era de escamas, cabeças, desperdícios de peixe que não se comem.
Já era tarde. O Hernâni já tinha visto a sua parte. Esboçou um sorriso triste, mas tolerante.
Os colegas, o Mauro, todos começaram a depositar ao lado do Hernâni tudo o que tinham.
E ali começou um movimento de solidariedade para dar dias de futuro à casa do Hernâni.
Na casa do Hernâni começou a entrar o sol. E para o filho com deficiência, o Mauro e os colegas que riam com as partidas solidarizaram-se numa solução para o filho do Hernâni e que fosse solução para outros meninos como o filho do Hernâni.
A história que o meu amigo Oliveira me mandou tocou-me. A vida do Hernâni são pedaços de vidas de muita gente que conheço.
Também eu gostava de dar um abraço ao Hernâni e dar-lhe solidariedade.
A história que vou contar recebia de um amigo que vive lá longe, no Canadá. O senhor Oliveira mandou-me esta história e eu fiquei sem saber se o meu amigo Oliveira não está dentro desta história.
Correspondo-me com o Oliveira há alguns anos. Nunca nos encontramos. Conhecemo-nos pela internet e a nossa amizade resulta de andarmos num mesmo barco. Andamos no mesmo barco, temos, eu e o amigo Oliveira, filhos com deficiência. Esta história toca-nos e não sei se é um pedaço da vida do Oliveira.
E a história começa assim.
Era um pequeno grupo de amigos que trabalhavam no mesmo sítio. Nesse grupo, o Mauro divertia os colegas com seus ditos e partidas. Todos gostavam dele e puxavam por ele. Não havia dia que o Mauro não pregasse partidas.
O principal alvo das brincadeiras do Mauro era o Hernâni.
O Hernâni falava pouco, mesmo muito pouco. À hora das refeições, o Hernâni afastava-se do grupo. Comia da sua marmita debruçado num silêncio continuado. Comia devagarinho como se estivesse a poupar a comida que trazia, dava a impressão que estava com fastio. Nunca lhe viram na cara ares de saciado. O Hernâni acabava sua refeição compassado pelo comer dos seus colegas. Arrumava a marmita rápido como a querer dizer que não queria dar a conhecer o que comia.
O Mauro estava sempre a pregá-las ao Hernâni. E o Hernâni nunca deu ares de zangado, agastado, aborrecido ou de irritado com partidas do Mauro. Respondia com palavras simpáticas aos atrevimentos do Mauro. Sempre com um sorriso tolerante e amigo e com olhar doce. O comportamento tolerante do Hernâni atiçava mais o Mauro com ditos, partidas e brincadeiras que mais podiam agastar a paciência do Hernâni.
Os companheiros do grupo riam, achavam piada, acrescentavam alguma pimenta às palavras do Mauro. Mas o Hernâni a todos envolvia com um sorriso amigo e tolerante.
Ora um dia o Mauro programou uma partida com antecedência de dias.
A semana trazia um feriado e seguia-se uma ponte.
O Mauro publicitou no grupo que ia aproveitar aqueles dias para umas pequenas férias e que ia fazer pesca e caça, diversões preferidas. E se a pescaria fosse abundante, prometeu que trazia para os colegas uns quilos de pescado. A notícia ficou. Todos desejaram boa pescaria ao Mauro.
De regresso ao trabalho, Mauro apresentou-se carregado. Trazia sacos e arcas com peixe.
Com atitude cerimoniosa, começa a distribuição pelos colegas. Todos agradeciam e admiravam a abundância e a qualidade do pescado.
O saco mais volumoso e pesado ficou para o fim. Foi entregue ao Hernâni.
O Hernâni recebeu, agradeceu e começou a falar num tom de voz desconhecido.
E disse que ia levar tudo para casa, que em sua casa há muitos dias, há meses, há anos não entrava nada assim. E continuou em tom baixo e concentrado a relatar as dificuldades que iam lá por casa. Um filho com deficiência em idade adulta que dava muito trabalho pela incapacidade que tinha. Outros filhos crianças. A mulher doente, desgastada pelo trabalho de arrastar aquela vida de dedicação. Doente por muitas noites acordada para acudir ao filho deficiente. E disse que comia afastado do grupo e muito devagarinho para que os colegas não sentissem a fome que trazia naquela marmita vazia.
Os colegas ouviam em silêncio e sem aqueles risos que acompanhavam as partidas do Mauro.
E é naquele instante que o Mauro salta lá de trás, empurra os colegas para arrancar das mãos do Hernâni o saco, a prenda que lhe tinha distribuído.
No saco do Hernâni, aquele volume e peso era de escamas, cabeças, desperdícios de peixe que não se comem.
Já era tarde. O Hernâni já tinha visto a sua parte. Esboçou um sorriso triste, mas tolerante.
Os colegas, o Mauro, todos começaram a depositar ao lado do Hernâni tudo o que tinham.
E ali começou um movimento de solidariedade para dar dias de futuro à casa do Hernâni.
Na casa do Hernâni começou a entrar o sol. E para o filho com deficiência, o Mauro e os colegas que riam com as partidas solidarizaram-se numa solução para o filho do Hernâni e que fosse solução para outros meninos como o filho do Hernâni.
A história que o meu amigo Oliveira me mandou tocou-me. A vida do Hernâni são pedaços de vidas de muita gente que conheço.
Também eu gostava de dar um abraço ao Hernâni e dar-lhe solidariedade.
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